No decálogo bíblico, o primeiro dos mandamentos a considerar as relações entre pessoas é o quinto (Ex 20.12; Dt 5.16). As cláusulas legais precedentes referem-se às relações do homem para com Deus. O fato desse preceito focalizar o relacionamento entre pais e filhos não é casual ou gratuito. Como acentua o apóstolo Paulo, trata-se do primeiro mandamento com promessa (Ef 6.2). Não só o primeiro, pode-se deduzir, mas o único, o que, quando menos, o toma um dos mais difíceis a cumprir.
O Novo Testamento irá corrigir o que parece ser uma visão parcial, unilateral, das relações entre pais e filhos conforme a formulação do quinto mandamento. De fato, este fala dos deveres filiais, mas não menciona a necessária recíproca. Isso não significa dizer que a lei fosse imperfeita, mas que simplesmente traduzia o espírito de uma sociedade patriarcal em que o devido respeito e acatamento aos direitos e à autoridade parentat eram tidos como imprescindíveis à harmonia familiar e à estabilidade social. De qualquer forma, em Efésios 6.4 o apóstolo repõe as coisas em seus devidos lugares: filhos obedientes, pais responsáveis.
Caso contrário, os efeitos, de amplo conhecimento tanto de pais quanto de filhos, não deixarão de ocorrer: revolta, ressentimento, abandono e frustrações. Traumas por vezes indeléveis.
Para que tudo tenha a possibilidade de ir bem nas relações entre pais e filhos, alguns pontos essenciais precisam ser observados.
Entre o bem e o mal
É evidente, na quase totalidade dos casos, que os pais querem o bem de seus filhos, mesmo quando agem errado em relação a eles. Esse dado é digno de ênfase: os pais, às vezes, agem errado em relação a seus filhos. As boas intenções nem sempre se concretizam em ações corretas ou producentes. Até aí, tudo bem, ou seja, ninguém desconhece que errar é humano.
O mal começa quando os pais são incapazes de admitir esse fato primário. Pressupondo-se infalíveis, eles embarcam na canoa furada da presunção e do autoritarismo. No primeiro caso, pensam que querer o bem já é fazer o bem (presunção de onipotência). No segundo, não aceitam que suas palavras e atos sejam questionados pelos filhos, impondo uma verdadeira ditadura na forma de tratar com eles e reduzindo-os à condição de “não-pessoas”. Em geral, o método tende a funcionar bem a-penas enquanto os filhos não dispõem de forças suficientes para defesa.
Os filhos, por seu turno, costumam cometer o erro de pensar em seus pais apenas como país, isto é, como investidos do papel social de provedores de uma felicidade absoluta que nenhum ser humano tem o direito de exigir que outro ser humano lhe proporcione. Nesse sentido, acabam tentando
submeter os pais a seus caprichos mais insignificantes, fazendo desses pais uma espécie de deuses culpados de quem se pode exigir tudo e a quem não se deve nada.
Pais e filhos são mais que pais e filhos. Antes de o serem, são seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus. Nesse sentido, como pessoas livres e tendentes, de forma legítima e incoercível, à autodeterminação.
Cabeças complexas
Como compreender as exigências dos pais? Como compreender a cabeça dos filhos? Em primeiro lugar, como dados que fazem parte de um complexo universo de intenções, desejos, sonhos, motivações e reações que nem sempre encontram sua melhor expressão em face das pessoas e circunstâncias envolvidas. No caso das exigências dos pais, as quais, para muitos filhos, em especial adolescentes, parecem totalmente descabidas, é importante saber porque são feitas.
As razões, no lado positivo, são múltiplas e variadas: preservação do bem-estar e da segurança dos filhos; tentativa de evitar que cometam erros graves, às vezes fatais; encaminhamento no sentido do equilíbrio, da sabedoria e da auto-realização; salvação da alma; manutenção de uma boa imagem social. Uma série, enfim, de boas e justificadas razões para pregar a disciplina e requerer acatamento.
Ocorre que nem sempre esses pais estão plenamente conscientes das motivações inadequadas, negativas, que podem estar por trás de certas exigências que fazem ou de certo comportamento que adotam. É muito comum, por exemplo, tentarem impor aos filhos um padrão de absoluta perfeição nos estudos ou na conduta moral. O objetivo, quase nunca consciente, é a realização, através dos filhos, daquilo que eles (pais) não conseguiram por si mesmos na vida. Com isso, acabam cobrando em excesso de pessoas que não têm culpa das frustrações daqueles que as trouxeram ao mundo.
Há também casos em que os pais, na maioria das vezes, sem perceber (“para o bem dos filhos”), descontam nos filhos os maus tratos e injustiças de que foram vítimas na vida. Fazem-no mediante um rigor disciplinar excessivo. Ou então, para evitar cair nesse erro, adotam a tática oposta: excesso de leniência, ausência quase completa de orientação e disciplina. Os filhos terão que aprender “na vida” o valor da consciência dos próprios limites e da correspondência necessária entre direitos e deveres.
Em ambos os casos, o resultado, a médio e longo prazos, é a revolta e o ressentimento. Não dá para alegar depois que não sabe porque o filho não respeita, não obedece ou, pior que isso, não ama. Não se pode deixar de falar também da hiperproteção de que os filhos são vítimas da parte de seus pais. Pode- se hiperproteger por um exagerado e infundado medo dos “perigos” da vida. O desconhecimento da dinâmica e das leis inerentes ao desenvolvimento é uma outra causa. Na pior das hipóteses, é provável ainda que os pais superprotejam seus filhos meramente para mantê-los indefesos diante a vida e, assim, totalmente dependentes deles, pais. No fundo, seria uma forma projetiva de receberem através da dependência dos filhos a atenção, o carinho e os cuidados que eles não tiveram de seus próprios pais. Só que nesse caso se nega implicitamente aos filhos o direito de serem pessoas livres, autônomas, o que é o método mais eficaz para produzir pessoas sem iniciativa, tímidas e revoltadas.
A Terra se move
E os tempos mudam. Em geral, os filhos de hoje sabem muito mais do que seus pais, do ponto de vista da instrução formal. Inclusive, sabem mais de seus pais do que os filhos de tempos remotos ousavam saber. Não é difícil a esses meninos e meninas perceber o quanto de incoerência, injustiça e autoritarismo costuma estar presente em certas exigências e proibições que os pais lhes fazem.
Compreender o que se passa na cabeça dos filhos fica menos complicado quando os pais os consideram como pessoas, além de filhos. A sentença de Khalil Gibran em “O Profeta” é de todo pertinente a esse respeito: “Vossos filhos não são vossos filhos, mas filhos da ânsia da vida por si mesma”. Filho não gosta de ser tratado como objeto, coisa, brinquedo. Não gosta que se pense que ele seja tão frágil, inexperiente e despreparado que jamais poderá fazer algo de importante de si mesmo e por si mesmo na vida. Gosta de disciplina e orientação, não de violência e despotismo. Gosta dos pais como amigos, não como fiscais ou donos. Sobretudo, gosta de saber do porquê das coisas.
O lugar da autoridade
É aqui que entra um e mito importantíssimo na relação pais/filhos. A diferença entre autoridade e autoritarismo pode ser dada pela seguinte fórmula: quem tem autoridade manda, exige ou proíbe e diz o porquê. Quem age com autoritarismo manda, exige e proíbe sem dizer o porquê. Dizer a razão pela qual se age dessa ou daquela forma implica em conhecimento de causa e respeito pela personalidade e inteligência do outro. O autoritário não quer saber das razões alheias, razão pela qual acaba agindo de maneira irracional na maioria das vezes.
Pais que sabem educar seus filhos sempre dizem a estes a razão pela qual devem agir de uma determinada forma. Não é porque “eu quero” ou “eu estou mandando”, mas porque é necessário a partir de um dado principio prático, ético ou espiritual. Nesse sentido, a antiga lei mosaica era profundamente sábia, na medida em que estimulava os pais a estarem preparados e dispostos para responder aos “porquês” de seus filhos.
É lamentável admitir que alguns pais simplesmente não sabem o porquê das coisas. Casam e geram filhos, mas não estão preparados nem para uma nem para outra dessas situações. Foram “educados” de forma errônea e agora repetem essa conduta. Acontece que, como se disse, o mundo hoje é outro. A criança, o adolescente e o jovem dispõem de mil e uma fontes de informação além da voz exclusiva e “autorizada” de seus pais. Se forem seres humanos normais, fatalmente ficarão confusos quanto a obedecer a essa voz, embora defasada pedagógica e culturalmente, mas pertencente a pessoas que exigem, até em nome de Deus, acatamento, ou seguir o que aprendem na escola, nos livros e nos meios de comunicação.
Não há como fugir do imperativo: os pais precisam estar aptos para educar seus filhos com autoridade, o que equivale a dizer que os educarão também com liberdade. O que vai além disso é, no mínimo, de procedência maligna.
Solidários ou solitários
É óbvio que, para exercer a devida autoridade parental, é preciso dedicar tempo para educação dos filhos. Este talvez seja o mais grave dos problemas existentes nessa difícil área do relacionamento humano. O ritmo acelerado da vida atual cobra um preço demasiado alto daqueles que não querem, não podem ou não sabem evitar serem por ele envolvidos e controlados. A estrutura da moderna família nuclear (marido, mulher e filhos, vivendo juntos) já não corresponde, em vários aspectos, ao modelo de desenvolvimento adotado pela sociedade. Existem pais que, devido aos compromissos com a engrenagem de produção vigente dentro desse modelo, mal conseguem manter contatos esporádicos e superficiais com seus filhos. Pode-se dizer que, em.muitos casos, pais e filhos são “desconhecidos domésticos”.
Seja como for, educação sem tempo, esforço e dedicação não podem existir; e realmente não existem. A escola e a igreja educam apenas em áreas específicas – quando educam. O mote antigo é perfeito, a propósito: educação começa em casa. Nesse sentido, os pais têm a responsabilidade de reservar tempo para estar em companhia dos filhos. Em uma verdadeira família, seus integrantes compartilham praticamente todas as situações da vida de todos. Os pais conhecem a realidade da vida escolar, afetiva, religiosa e profissional (quando existe) dos filhos, procurando ajudá-los em cada uma dessas áreas.
Por sua vez, os filhos não ignoram a realidade da vida dos pais. Condições de relacionamento conjugal, orçamento familiar, projetos individuais e problemas pessoais de ambos. É claro que essa integração não é fácil de obter, mas sem ela pode-se afirmar que a família existirá apenas de direito, não de fato.
Assuntos difíceis
Existindo essa integração e sendo a família constituída de pessoas solidárias entre si, o grupo familiar estará apto a enfrentar e vencer qualquer situação de crise ou dificuldade. Em última análise, os pais precisam ensinar os filhos a viver. Isso não significa ensinar aquilo que os filhos podem aprender por si mesmos ou a partir de outras fontes. Existem, entretanto, assuntos que só podem ser adequadamente assimilados e resolvidos se focalizados dentro de uma atmosfera familiar de carinho, compreensão e maturidade.
Sexo, por exemplo. Quando pensamos na sexualidade dos animais, percebemos que eles já nascem “sabendo” tudo a respeito. Os seres humanos, no entanto, além do instinto natural dos animais, possuem o que se pode chamar de “inserção cultural”. Isso implica reconhecer que, dependendo da cultura de que se faz parte, o sexo pode se tomar um assunto muito complicado. Nesse caso, os pais devem abordar o tema com sabedoria espiritual e conhecimento de causa. Responder com exatidão e naturalidade às perguntas dos filhos, evitando emprestar qualquer conotação de culpabilidade aos aspectos da vida sexual que realmente não a possuam. Chamar as coisas pelo nome correto. Dependendo da idade dos filhos, a adjetivação, por pleonástica que seja, se faz necessária.
Sobretudo, ensinar que sexo, dentro dos padrões bíblicos, é bênção; não pecado ou maldição.
Carreira e profissão – outra área das mais relevantes. Os filhos precisam saber como ganhar a vida, se possível fazendo aquilo que gostam. O apoio parental a esse respeito, orientando e estimulando, é imprescindível.
A questão afetivo-sentimental também precisa ser abordada de modo adequado. Com quem namorar, noivar, casar. Não cair na tentação de escolher para os filhos, mas aconselhá-los no sentido de uma escolha com maiores probabilidades de êxito. Os filhos, por seu lado, devem ouvir com atenção e disposição de agir de forma compatível, seguindo as instruções de seus pais sobre o assunto. Mais uma vez: quando esses pais sabem dizer o porquê.
Decisão religiosa: esta pertence a cada individuo em particular. Por mais “certos” que estejam, os pais não devem pretender obrigar seus filhos a assumir esta ou aquela confissão ou prática religiosa. Podem e devem ensinar o caminho (Pv 6.22), mas quem vai andar por ele são os filhos. O dever e a responsabilidade dos pais se limita a ensinar, a dar o exemplo e a estimular, com amor e paciência, seus filhos a adotarem o caminho certo. Se eles o fizerem, graças a Deus. Do contrário, não terão o direito de culpar seus pais ou responsáveis pela decisão nefasta.
No capítulo dos assuntos difíceis, pode-se adicionar a questão dos erros e pecados, alguns graves, que os filhos – e os próprios pais – cometem. Confiança mútua, amor cristão e apoio familiar são ingredientes indispensáveis na receita das atitudes e decisões que levarão à alegria do perdão e da reabilitação.
Com amor e carinho
De tudo o que foi dito e lembrado e que precisa ser corrigido ou aperfeiçoado, nada se pode conseguir sem o dado essencial do amor cristão operando em termos de comunicação, apoio e carinho entre pais e filhos. Sem amor, as relações entre eles tomam-se frias e formais, quando não abertamente agressivas e desrespeitosas. Sem amor, é impossível aos últimos cumprir o quinto mandamento, cujo objetivo é reconhecer o valor e a glória pessoais de geradores e sustenta dores de vidas, as quais agora precisam sustentar e abençoar aqueles que as tornaram realidade. Sem amor, por outro lado, é impossível aos pais deixarem de irritar e frustrar seus filhos, que não nasceram sabendo como viver de maneira digna e correta, nem como trilhar o caminho da realização e da felicidade.
Amor é para existir e se expressar. Dizer “eu te amo” gera alegria e saúde nas relações. Lembrar do dia do aniversário, fazer um bolo, enviar um telegrama ou uma carta, comprar uma torta, dar um presente que nem precisa ser caro (uma agenda, uma Bíblia, um disco, uma peça de roupa, um frasco de perfume), dar um telefonema, fazer uma oração, ler um Salmo, destacar publicamente uma qualidade ou feitos pessoais. Exaltar as vitórias alcançadas, como concluir um curso ou ser lembrado para um cargo ou função. Evitar chamar a atenção em presença de terceiros. Sorrir, chorar, tocar. Abraçar. Brincar. Alertar. Consolar. Aceitar. Reconciliar-se. Aconselhar. Dizer a verdade sem ódio, rispidez ou amargura.
A presença cada vez mais dominante da televisão no ambiente doméstico deve-se basicamente ao fato de que raras são as famílias que vivem de maneira integrada, participativa e criadora. No ambiente onde existe diálogo, trocas afetivas, intercâmbio espiritual, apoio e carinho mútuos, a televisão não é mais que um mero acessório. Na casa onde impera a rotina, onde a comunicação é seca e rarefeita, onde as relações são rígidas e truncadas, a televisão acaba sendo o fator principal, funcionando como o agente ilusório de uma comunicação que realmente não existe.
Viver criativamente
É claro que na exigüidade de um simples artigo não se pode esgotar tema tão complexo e abrangente como as relações, as quais possam vir a ser aprofundadas em projetos de maior amplitude e detalhamento. Como foi dito, pais e filhos não se relacionam apenas enquanto tais. Tratam-se de seres humanos que, além de tudo o que constitui seu rico e por vezes misterioso universo pessoal, existe tu também como pais e filhos. Nesse sentido, é necessário que tanto uns quanto outros estejam preparados para existir e funcionar de modo criativo em suas mútuas relações, sabendo como escapar da armadilha de papéis sociais rígidos e pré-determinados.
Pais não são só para prover, mandar e exigir. Eventualmente, eles podem ocupar posições opostas a isso. Quanto mais forem flexíveis a esse respeito, enquanto tiverem opções, mais serão respeitados e honrados quando estas forem se estreitando e desaparecendo. Da mesma forma, filhos não são só para depender, obedecer e cumprir. Quando mais livres forem para tomar suas próprias iniciativas e decisões e forjar as ferramentas de sua auto-realização, mais livres estarão para amar e honrar seus pais quando estes chegarem ao crepúsculo da vida. E para receber idêntico tratamento quando eles próprios, filhos, estiverem na mesma situação.
Revista Nosso Lar, CPAD, julho/agosto/1995
Macéias Nunes
Pastor e Psicólogo
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